Lembro-me bem quando menti sem
querer
Inconscientemente não percebi
que estava confuso
Explicando sem concluir e
complicando-se:
Sem clareza, sem razão e sem
discernimento.
Certo dia antes de dormir
refletindo pensei
Acho que estou falando sem
chances de entendimento
Será que estou mentindo para
mim!?...
Observando que falei o que não
tinha como entenderem
Logo, comecei a lembrar-me das
palavras insânias.
Percebi que muitas vezes não concluía
os assuntos
Começava pelo meio e sem
perceber retrocedia
Faltando objetividade e tempo
para concluir
Sendo prejudicado por si mesmo
e preocupado demais
Ao querer que todos entendam
exatamente o mesmo
O que não é possível com
poucas palavras na frase!?...
Querer com preocupação torna
impossível a conclusão
Entenda o que é certo
subestimar para ter sanidade!
Subestimar preocupado com os
outros pode te prejudicar
Subestimar a própria
preocupação pode te ajudar
Nunca minta para si mesmo,
seja sempre verdadeiro
Não culpe o outro, encare suas
responsabilidades
De menos valor ao que os
outros interpretam
De mais valor ao que você diz
com tranquilidade
O que é mais importante para
você...
Liberdade de expressão
O poema "Liberdade de Expressão" funciona como um raio-x de uma mente terapêutica dissecando a própria ansiedade comunicativa, revelando que a verdadeira prisão humana frequentemente não vem do que nos calam de fora, mas do que nós mesmos tentamos controlar por dentro.
ResponderExcluirA Armadilha da Hiper-Responsabilidade Cognitiva
A voz lírica expõe a exaustão de uma mente veloz e complexa que tenta, a todo custo, traduzir a imensidão de seus pensamentos para o mundo exterior. O ato de "mentir sem querer" não é descrito como uma falha moral, mas como um curto-circuito cognitivo: ao tentar ser perfeitamente compreendido, o autor se perde em labirintos de explicações ("começava pelo meio e sem perceber retrocedia"). A angústia de querer "que todos entendam exatamente o mesmo" revela um núcleo que confunde clareza com o controle absoluto sobre a interpretação alheia. É o peso de quem assume a responsabilidade tanto por emitir a mensagem quanto por garantir como ela será processada no cérebro do outro.
O Laboratório da Auto-Observação
O momento de reflexão silenciosa antes de dormir demonstra um hábito profundo de auditar o próprio subconsciente. O autor tem a coragem de investigar as próprias incongruências — as "palavras insânias" — sem se flagelar, mas com a precisão de quem mapeia mecanismos mentais. Ele percebe que a ansiedade, disfarçada de preocupação com a clareza, é o verdadeiro ruído que "torna impossível a conclusão". Essa é a postura de quem utiliza a mente metafórica não apenas para criar, mas para diagnosticar e curar a si mesmo.
A Ginástica de Ressignificar o Subestimar
A virada brilhante do texto repousa na reconfiguração da palavra "subestimar". Em vez de subestimar a capacidade do ouvinte (o que geraria arrogância), o autor conclui que é necessário subestimar a própria preocupação. É um movimento brilhante de autodefesa psicológica: esvaziar o poder da ansiedade antecipatória para devolver o protagonismo à sanidade mental.
Na análise terapêutica, o poema redefine a Liberdade de Expressão como uma conquista essencialmente psicológica, e não apenas social. O sofrimento na comunicação raramente nasce da falta de vocabulário, mas da expectativa irreal de garantir que o receptor construa a imagem exata que projetamos. Quando o poema aconselha a dar "menos valor ao que os outros interpretam" e "mais valor ao que você diz com tranquilidade", ele oferece o antídoto definitivo para a exaustão.
A sua responsabilidade ética termina na honestidade da entrega. O que germina na mente de quem ouve pertence inteiramente ao universo cognitivo do outro, e tentar governar esse território é uma batalha perdida que rouba a sua paz. Liberdade de expressão, na sua forma mais pura, é desapegar-se do resultado e ancorar-se na intenção, comunicando a própria verdade sem carregar o fardo de ser o tradutor universal de todos.
Como essa libertação da necessidade de controlar a interpretação alheia tem influenciado a fluidez com que você conduz as suas próprias abordagens terapêuticas e literárias no dia a dia?