domingo, 3 de fevereiro de 2019

Abraço

Um abraço a todos:
Que me amam e me odeiam;
Aos meus amigos e aos meus inimigos;
Também aos conhecidos, animais e desconhecidos.

A você que me entende e a você que não se entende
A você que aceita e a você que não necessita
A você que quer e a você que não quer
A você um cumprimento igual ao seu comprimento
Não precisa odiar, porque não é necessário sentir
Não se obrigue ao que pode não gostar
Não minta sobre o que pode ser verdade
Não acredite desde a primeira vez

Duvide das verdades
Duvide das mentiras
Duvide dos outros
Duvide de si mesmo

Aprenda uma vez
Aprenda duas vezes
Aprenda muitas coisas
Aprenda o que é amar
Queira ser desejado e o desejo

Mas não obrigue e nem seja obrigado

Levante-se e nos dê um abraço

Mas não fique aí sentado esperando alguém chegar
Este é o dia que começamos a melhorar

2 comentários:

  1. O poema propõe um exercício radical de libertação emocional através da aceitação e da quebra de expectativas. A obra constrói um percurso que vai da neutralidade diante do outro até a responsabilidade ativa pela própria vida, desconstruindo a necessidade de agradar ou de sentir o que não é genuíno.
    O Nivelamento dos Afetos
    Ao distribuir um abraço igualitário a quem ama, odeia, conhece ou desconhece, o poema neutraliza o peso da validação externa. O eu lírico recusa-se a ser refém do comportamento alheio. A genialidade está no verso "um cumprimento igual ao seu comprimento": uma metáfora espacial que estabelece limites saudáveis. Significa entregar ao outro exatamente a medida proporcional do que a relação comporta, sem se esticar até arrebentar, nem encolher para caber em espaços pequenos.
    O Direito à Neutralidade e à Dúvida
    A estrofe que desobriga o ódio ("não precisa odiar, porque não é necessário sentir") ataca diretamente a exaustão emocional. Somos frequentemente cobrados a ter uma posição forte sobre tudo e todos. O poema valida a ausência de sentimento como um espaço seguro. Em seguida, a repetição imperativa da palavra "Duvide" transforma o ceticismo em ferramenta de cura. Duvidar de si mesmo, neste contexto, não é insegurança, mas a humildade necessária para não se tornar prisioneiro das próprias verdades absolutas e crenças limitantes.
    A Recusa da Obrigação e o Chamado à Ação
    A transição final abandona a passividade. Aprender a amar e desejar ser desejado é colocado sob uma condição inegociável: a ausência de coerção ("não obrigue e nem seja obrigado"). O desfecho rompe com a espera messiânica por salvação. O "levantar-se" e o "não ficar sentado esperando" revelam que a melhoria da vida é um verbo de ação, uma escolha diária de sair da inércia.

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  2. Existe um peso invisível que carregamos ao tentar forçar sentimentos que não possuímos e sustentar relações por pura obrigação. Passamos tempo demais tentando decifrar quem está do nosso lado e quem não está, quando, na verdade, a permissão para ser emocionalmente neutro é profundamente curativa. Você não precisa amar a todos, mas também não precisa gastar sua energia odiando quem lhe fez mal. A indiferença pacífica e o estabelecimento de limites proporcionais ao que a relação oferece são direitos seus.
    Quando o poema sugere que você duvide das verdades, das mentiras e até de si mesmo, ele está lhe entregando a chave para a flexibilidade mental. Muitas vezes, o sofrimento se perpetua porque nos apegamos rigidamente a uma história que contamos sobre nós mesmos: "eu sou assim", "eu nunca vou conseguir", "as pessoas sempre me decepcionam". Duvidar dos próprios pensamentos automáticos é o primeiro passo para reescrever a sua narrativa. A mente mente, e permitir-se questionar as próprias convicções abre espaço para a mudança.
    No entanto, o aprendizado, a dúvida e a compreensão interna perdem o sentido se não houver movimento. A cura não acontece apenas na reflexão silenciosa; ela se consolida na ação. Esperar que o ambiente perfeito se forme ou que alguém venha resgatá-lo é delegar o poder da sua vida a terceiros. A vitalidade retorna no instante em que você recusa a passividade e escolhe participar ativamente da sua própria existência, sem forçar nada, mas também sem se omitir.
    Onde na sua vida você tem esperado sentado por uma mudança que, na verdade, só precisa que você se levante e dê o primeiro passo?

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